03.08.2022

Características típicas do Transtorno do Espectro Autista podem colocar em risco a saúde da boca das crianças

A higiene bucal de crianças com autismo deve ser feita de forma mais divertida e delicada, sempre com o acompanhamento dos pais
A higiene bucal de crianças com autismo deve ser feita de forma mais divertida e delicada, sempre com o acompanhamento dos pais

Uma boa rotina de higiene bucal é imprescindível para crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), pois previne cáries, inflamações na gengiva e outros problemas bucais que provocam dor ou sensibilidade nos dentes. O incômodo, por menor que seja, pode estressar e descontrolar a criança autista, desencadeando comportamentos mais agressivos. Por isso, ensinar desde cedo a escovar os dentes, passar o fio dental e a realizar outros cuidados de maneira simples (e divertida) é tão importante. O Sorrisologia conversou com a cirurgiã-dentista Uila Ramos, que falou mais sobre como realizar a higiene bucal de crianças com autismo da melhor maneira possível. É só continuar lendo!

É importante iniciar a higiene bucal antes de nascer o primeiro dente

De acordo com a cirurgiã-dentista Uila Ramos, é muito importante iniciar a higiene bucal do bebê antes de surgir o primeiro dentinho na boca. No caso de crianças com autismo, em especial, essa medida torna-se ainda mais necessária, pois permite introduzir um hábito desde bem cedo, o que reduz o estranhamento.  

“A higienização dos rodetes gengivais e da língua do bebê com uma gaze umedecida em água mineral é o início do contato da criança com alguém mexendo em sua boca para limpar. A partir da erupção do primeiro dente decíduo, os pais já podem (e devem) escovar, fazendo uso de uma escova infantil (cabeça pequena) e creme dental com flúor na quantidade semelhante à metade de um grão de arroz”, recomenda a profissional.

A especialista destaca, ainda, que é importante controlar bem o uso dos produtos de higiene bucal e ser paciente para ensinar a escovação aos pequenos. “Evite o excesso de ingestão  da pasta pela criança e, depois de escovar, sempre busque remover o creme com uma gaze. Assim, evita-se o risco de desenvolver a fluorose dentária. O problema é quando o cuidado com a higiene bucal começa de forma tardia, o que vai demandar muito esforço, conversa, demonstração e muita paciência, perseverança e carinho com a criança que ainda não se habituou com essa necessidade”, complementa.

Conte com a orientação de um dentista de confiança

Receber orientações sobre a higiene bucal e a alimentação da criança autista é muito importante para evitar estresses no processo. A Dra. Ramos destaca que cada momento da infância requer cuidados especiais. “Como o autismo costuma ser diagnosticado a partir dos 3 anos de idade, levar o bebê para o primeiro atendimento odontológico antes de aparecer o primeiro dente na boca é fundamental para orientar os pais sobre como realizar a higiene bucal em cada fase do desenvolvimento, bem como orientar o estilo alimentar que favorece a saúde bucal e o bom crescimento orofacial em cada fase da infância”, explica. 

Para prevenir problemas bucais que causam dor, é importante evitar o excesso de balas, biscoitos e outros alimentos com muito açúcar. A criança com autismo, em especial, também pode ficar mais hiperativa com o exagero de doces. “O grande problema está na introdução do sabor doce. Quando acompanhada de deficiência na higiene bucal e falta de acompanhamento odontológico periódico, a alimentação artificial ainda em fase precoce pode instalar problemas bucais sérios, como cárie e doença periodontal ainda na primeira infância”, destaca a profissional. 

Comece escovando os dentes junto com a criança

Que tal promover uma rotina de escovação dentária em família? Principalmente no início, de acordo com a dentista, curtir esse momento com os pais é um tanto benéfico para crianças autistas. 

“Para as crianças que não permitem a escovação, ajuda bastante mostrar o exemplo dos pais usando o fio dental e escovando os dentes. O vínculo afetivo e a proximidade são fatores que contribuem para a aceitação da criança. Mesmo que ela apresente dificuldade em um primeiro momento, é essencial levar a criança para a consulta odontológica. Conversar com o dentista, promover esse contato e deixar o pequeno sentir o ambiente, perseverando caso ele não queira ir inicialmente, é o começo necessário para bons cuidados”, afirma.

Passo a passo de escovação dos dentes 

Saber dialogar com as crianças faz toda a diferença para introduzir a higiene bucal. A Dra. Ramos dá ótimas dicas para tornar o momento da escovação mais divertido e ligado ao universo infantil: “De forma lúdica tudo fica melhor. Conversar e brincar com o seu filho te ajuda a conseguir fazer a higiene bucal depois das refeições. Dê nome para o fio dental (pode ser ‘tio limpador’), para a escova (como ‘dona shuá-shuá’) e o creme dental (‘tio branquinho’). Aproxime sua linguagem para o que seu filho entende, gosta e aceita”, recomenda a especialista.

Para realizar a higiene bucal da criança de forma eficiente e divertida, é importante ter delicadeza e seguir alguns passos. A partir dos 8 ou 10 anos de idade, a criança pode passar a escovar os dentes por conta própria, mas sempre supervisionada pelos pais. Antes disso, a escovação deve ser feita pelos responsáveis. A especialista dá dicas de como realizar a rotina de higienização dos pequenos:

  1. “Com paciência, comece a higiene bucal passando o fio dental entre um dente e outro, até limpar todas as superfícies dentárias interproximais (que tocam um dente no outro, ou mesmo se houver espaço entre eles). A delicadeza no uso faz toda a diferença, previne o surgimento de cáries interproximais e já acostuma a criança a fazer disso um hábito”, recomenda; 
  2. “Escove em sentido único: da região cervical dos dentes (perto da gengiva) até o final da coroa dentária, sempre de onde começa até onde termina, repetindo essa operação até limpar bem cada grupo de dentes. Lembre-se de escovar o lado de dentro, as superfícies mastigatórias e a língua também”, explica. Aqui, quando a criança passar a escovar os dentes sozinha, vale a pena ensinar bem o movimento e ainda fazer uma contagem numérica durante o processo. Conte de 1 até 10 a cada escovada, o que ajuda a criança autista a focar e a se sentir mais motivada durante a escovação;
  3. Depois de escovar todos os dentes, partindo da esquerda para a direita, é importante que a criança enxágue bem a boca. “Ensine o seu filho a cuspir. A ingestão do creme dental - dependendo do tempo, frequência e quantidade - pode colaborar para a instalação da fluorose dentária”, complementa.

Escolha a escova de dente ideal e atente à quantidade de creme dental infantil

Para finalizar, a dentista destaca a importância de escolher bem o tipo de escova e creme dental para a higiene infantil. Principalmente no caso de crianças com autismo, o tamanho da cabeça da escova e o tipo de cabo (que deve ser mais ergonômico) influenciam bastante. “Escova com cabeça pequena, cabo reto, cerdas macias e creme dental com flúor (1000 ppm) para prevenir as lesões de cárie. É importante ter delicadeza na mão para escovar. A partir do momento em que vão surgindo os outros dentinhos na boca, já pode-se introduzir o uso do fio dental”, orienta.

Vale destacar, ainda, que existe uma quantidade certa de creme dental para cada idade. De acordo com a Dra. Ramos, é importante respeitar essas medidas para prevenir problemas bucais:

  • Crianças abaixo de 2 anos: quantidade relativa à metade de um grão de arroz 
  • Crianças entre 2 a 5 anos: quantidade semelhante a uma ervilha 

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